Não há mais tempo para ficar esperando

Por Vivian de Albuquerque

Reflexões sobre uma entrevista da professora Margaret Heffernan à BBC e sobre o meu e o nosso comportamento

Sabe aqueles dias nos quais você está à toa, olhando notícias e informações diversas na internet e, do nada, esbarra num texto que te faz refletir? Não sei bem onde encontrei a entrevista com Margaret Heffernan, professora da Escola da Gestão da Universidade de Bath, Inglaterra, mas foi bem assim que aconteceu. O título falava sobre habilidades profissionais necessárias para um mundo cada vez mais imprevisível, mas foi uma das frases que me tocou. A jornalista perguntou qual foi a principal lição deixada pela pandemia até agora. E Margaret respondeu que a pandemia nos lembra que “a vida é incerta e que se ficarmos esperando diante da incerteza chegaremos tarde demais”.

Fiquei pensando em quanta gente conheço e que está só esperando. E isso – mesmo antes da pandemia. Esperando pela melhor ideia. Esperando pelo melhor momento. Esperando pelos outros. Esperando por ajuda. Esperando…

Também pensei sobre o que eu mesma estou esperando. E esbarrei assim na falta de experiência com o digital, na falta de um parceiro de negócios ideal… e consegui montar uma lista mental que realmente me incomodou.

Pois é. Incomodar é a palavra-chave. Se o incômodo é grande, podemos mudar para resolver. Se é “meia boca”, vamos postergando e, desta forma, esperando. Mas será que esperar vai trazer resultados? Não mesmo! O que traz resultados é a ação. Mesmo errando nas primeiras vezes – bem como nas segundas, terceiras, quartas e por aí vai – o mais importante é fazer. Como diz aquela frase “antes feito do que perfeito”. O perfeccionismo é o que nos trava.

E é preciso pensar que nada nunca irá ficar perfeito. Sempre é possível fazer melhor. E é justamente aí que reside a graça. Fazer as coisas sabendo que se pode fazer melhor numa próxima. O desafio faz sentido.

E como hoje é o dia das frases chavões, “quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?”. O frio na barriga é normal e saudável. Quando perdemos o medo de algo ou quando cremos que somos os melhores, saímos perdendo. Assim como perdemos quando deixamos de ser curiosos e criativos – o que também aparece na entrevista com Margaret. O entrevistador pergunta sobre uma vez em que ela comentou que “precisamos de menos habilidades tecnológicos e mais habilidades humanas bagunçadas”.  E ela respondeu que “a tecnologia pode nos ajudar a procurar trabalho, mas não vai nos dar a energia ou o otimismo de que necessitamos para conseguir a vaga. Quanto mais dependemos dela (tecnologia) para saber e conhecer as coisas, menos criativos e habilidosos nos tornamos.”

Ou seja, saia já deste marasmo da quarentena e comece a se experimentar. Faça coisas diferentes esperando por resultados também diferentes, mas não fique esperando. Como disse um participante de um treinamento que dei esses dias, resgatando o grande Renato Russo, “o futuro não é mais como era antigamente”. E se já não tínhamos o tal do plano perfeito – ou se ele perdeu totalmente a validade por conta deste fatídico ano de 2020, por que nos apegarmos a ele? Não há tempo para ficar esperando!

Margaret Heffernan   foi CEO de cinco empresas, é professora na Escola da Gestão da Universidade de Bath na Inglaterra e autora de seis livros.

O mais recente, Uncharted: How to map the future (“Inexplorado: Como traçar o mapa do futuro”, em tradução livre) foi publicado no início de 2020 e, em fevereiro, incluído pelo jornal britânico Financial Times na lista de livros recomendados do mês. A autora tem um livro publicado no Brasil — O poder das pequenas mudanças (Editora Alaúde).